O cenário é paradisíaco: areia branca, mar cor de esmeralda e um céu sem nenhuma nuvem. "Não vi nada igual", diz a turista portuguesa Maria do Rosário, enquanto saboreia a terceira caipirinha. Na mesa ao lado, um grupo de americanos alimenta uma acalorada discussão regada a muita cachaça da casa, enquanto um casal em lua-de-mel mantém-se alheio ao movimento a sua volta. "Aqui, cada um faz o que quer. Nosso maior desafio é fazer com que os hóspedes usufruam desse cartão- postal que é Natal com conforto e qualidade", afirma o geólogo paulista Eduardo Bagnoli, 53 anos, que desde 1995 comanda o Manary Praia Hotel, o primeiro a integrar o Roteiro de Charme no Rio Grande do Norte.
Concebido com o propósito de respeitar o meio ambiente e a qualidade de vida, quando o tema ainda era restrito à academia, o Manary foi planejado para ser um espelho do Nordeste da pré-história aos tempos atuais. E o conceito se reflete na arquitetura, na decoração, na alta gastronomia e na trilha sonora. Para se ter uma idéia, o restaurante da piscina é uma réplica de ocas indígenas, construídas com troncos e folhas de carnaúba, enquanto o edifício central lembra os casarões de Olinda. Pelos corredores, obras de arte, artesanato, arte plumária indígena e objetos que habitavam as cozinhas do Império, além de redes nas varandas dos 24 apartamentos. "A modernidade fica por conta da alta tecnologia presente em quase todos os ambientes, a exemplo da internet banda larga wi-fi e das TVs LCD nos quartos", diz Bagnoli.
Com um faturamento médio mensal de R$ 360.000 e 44 funcionários, o Manary tem sua própria cartilha de gestão, construída em anos de aprendizado, segundo o empresário. A ordem é priorizar a transparência nos números, a divisão de lucros entre os empregados, o serviço de qualidade, a repaginação freqüente dos espaços, o treinamento da mão-de-obra e o respeito à cultura local. Assim, o hotel mantém uma média de ocupação de 75% ao longo do ano, acima dos números locais. Para driblar os períodos de baixa, quando o movimento chega a cair 40%, Bagnoli cria pacotes especiais para os turistas potiguares, intensifica a recepção de grupos estrangeiros e sedia eventos corporativos.
Somando regionalismo e modernidade, o Manary é o espelho da Natal dos anos 2000, uma cidade que há uma década era vista como o patinho-feio do Nordeste, apesar da exuberância de suas paisagens, do título de o ar mais puro das Américas e da proximidade com a Europa e a África. "O cenário hoje é bem diferente e a cidade cresce em níveis superiores à media nacional, sem perder seus bons índices de qualidade de vida", afirma Marcelo Caetano Baptista, secretário estadual de Desenvolvimento. O segredo para o sólido desempenho, segundo o secretário, está na distribuição dos recursos em todos os pilares da economia e não apenas no turismo; no investimento em infra-estrutura; no rigoroso controle do impacto ambiental e no incentivo racional à criação de novos negócios.
Rumo ao Norte
Embora o turismo seja o carro-chefe da economia local e o maior gerador de empregos, já que Natal recebe mais de 2 milhões de turistas por ano, a cidade é forte na extração mineral, no cultivo de frutas, na indústria têxtil, na pesca, sendo o maior exportador de camarão do país, e na construção civil, além da exploração de gás e petróleo. O mercado imobiliário também desponta como uma boa fonte de investimentos, já que ainda não atingiu 20% do seu potencial. "Temos um déficit habitacional enorme e falta de produtos com novas tecnologias e conceitos de qualidade de vida, ambientalmente corretos e integrados com lazer", afirma Renato Garcia, dono da RGarcia Consultoria & Investimentos. Trabalhando a todo o vapor, Natal gerou entre janeiro e maio deste ano 6.041 novos empregos, figurando em 25º lugar entre as 100 cidades brasileiras que mais criaram postos de trabalho nesse período, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego.
Não são apenas os empresários brasileiros que estão de olho na cidade: boa parte dos novos empreendimentos, sobretudo nas áreas hoteleira, comercial e imobiliária, conta com capital estrangeiro. Grupos espanhóis, italianos e portugueses elegeram a cidade como centro de investimentos e local de instalação da segunda residência, com empreendimentos que movimentarão R$ 480 milhões nos próximos dois anos. Ao todo, 284 estrangeiros aplicaram em 2007 recursos em algum tipo de negócio no estado, em 90% dos casos, em Natal. Se os estrangeiros injetam dinheiro, também contribuem para o aumento do custo de vida. Hoje, o metro quadrado dos terrenos na cidade varia entre R$ 2.000 e R$ 4.000, valores semelhantes aos de São Paulo. "Mesmo assim, as aquisições crescem em larga escala, sendo anunciados só no litoral norte mais de 100 projetos imobiliários para os próximos cinco anos", afirma Garcia. Segundo o consultor, o Rio Grande do Norte, que cresceu em média 4,3% nos últimos dez anos, deve incrementar a curva do crescimento em 8% na próxima década. Boa notícia para quem quer empreender na cidade.
Por Adriana Fonseca e Katia Simões