Não faz muito tempo, a cidade de Rio Verde, distante 220 km de Goiânia, ganhou fama nacional, não só pela gigantesca produção de grãos e pelo gado de genética impecável, mas também por aparecer nos noticiários com uma oferta de emprego maior do que o número de pessoas dispostas a arregaçar as mangas. "Foi uma correria danada. Todo dia desembarcavam centenas de pessoas em busca de carteira assinada", afirma o prefeito Paulo Roberto Cunha. Nem verdade nem mentira. Ainda hoje a economia de Rio Verde cresce acima da média nacional. Nos últimos cinco anos, o município gerou 25.000 empregos. Mas só há vagas para mão-de-obra qualificada, seja no campo, na indústria ou na prestação de serviços.
"Costumo dizer que passamos do estágio de produtores rurais para o de empreendedores rurais", diz Antonio Martins, 48 anos, engenheiro agrônomo e sócio da Tec Agro, revenda de produtos agrícolas. "Deixamos de exportar produto primário para oferecer produto de alto valor agregado, além de investir na industrialização."
Nascido em Rio Verde, no tempo em que a cidade não tinha ruas asfaltadas e nem luz elétrica, ele enche a boca para falar do desempenho econômico de sua terra natal. A própria Tec Agro é um exemplo do quanto o agronegócio se profissionalizou na cidade. A empresa, com sede em Rio Verde e filial na vizinha Montevidiu, revende sementes e defensivos agrícolas suficientes para cobrir 500.000 hectares de lavoura por ano. Com apenas 12 anos de mercado, 42 funcionários, saltou de um faturamento anual inicial de R$ 800.000 para R$ 40 milhões em 2007. Mais do que comercializar os produtos, a Tec Agro, segundo Martins, presta consultoria aos seus clientes antes e depois do plantio. "Estudamos o solo para indicar o melhor produto, porque de nada adianta vender se a semente não germinar", diz.
Adepto de modernos conceitos de gestão, Martins criou, há quatro anos, um conselho administrativo, que se reúne mensalmente. Além disso, põe em prática boa parte das melhorias apontadas por grandes consultorias contratadas pelos fornecedores para acompanhar o desempenho de revendas como a sua, dá participação nos lucros aos funcionários e investe no aprimoramento técnico de toda a equipe. "Quem quer crescer não pode ficar parado", afirma Martins. E o empresário não fica, até porque faz questão de usufruir do crescimento
de Rio Verde. Em 2000, ele abriu a Sementes Goiás, especializada em sementes de soja, e ainda mantém uma fazenda agrícola.
Esse, contudo, não é o primeiro surto de crescimento de Rio Verde. Na década de 70, a criação da Cooperativa Mista dos Produtores do Sudoeste Goiano (COMIGO), hoje entre as maiores do país, agitou a economia local. Nos anos 80 e 90, levas de gaúchos e paulistas chegaram de olho na riqueza da soja. Nos anos 2000, com a instalação da maior planta industrial da Perdigão, mais uma vez a cidade ganhou novo perfil. Com um abate diário de mais de 350.000 frangos e 3.500 leitões e sua transformação em produtos industrializados, a empresa fez surgir cerca de 250 novos negócios ao seu redor. "A Perdigão ajudou a fixar o produtor no campo, colaborando para a instalação de granjas automatizadas e altamente produtivas, além de qualificar a mão-de-obra", diz Ângelo Landim Júnior, presidente da Associação Comercial e Industrial de Rio Verde. "Fornecer para a Perdigão ainda hoje é um grande negócio, porque a produção é totalmente absorvida".
Com dinheiro circulando, já que os abates não param, crescem as oportunidades de novos negócios no comércio, na área de serviços e até para as microempresas, com a implantação do Distrito Industrial, que oferece, além da infra-estrutura, incentivos fiscais para os pequenos fabricantes. Hoje, quem quiser investir em Rio Verde não precisa necessariamente apostar no agronegócio. "Há muito que explorar na prestação de serviços para a área industrial, desde limpeza de ar-condicionado até consultorias em gestão e tecnologia", diz Landim. "Sem contar a construção civil, que nunca esteve tão aquecida. Falta mão-de-obra especializada e quem quiser fazer uma simples reforma, além de pagar caro tem que esperar a disponibilidade do empreiteiro." Com custo de vida alto e uma boa infra-estrutura, Rio Verde recebe bem os investidores externos. Mas não é demais lembrar que rumar para o Centro-Oeste significa abrir mão de alguns prazeres das grandes cidades, principalmente os culturais, ter afinidade com o agronegócio e com o ritmo mais calmo do interior do país.
Por Adriana Fonseca e Katia Simões